segunda-feira, maio 16

Para Ferreira Goulart judiar é OK

A Cartilha do Politicamente Incorreto, é um nome muito melhor que "Politicamente Correto", parece cabeça de bacalhau. Infelizmente não se encontra nenhuma pessoa que tenha recebido a tal Cartilha e a Secretaria de Direitos Humanos também não coloca as famigeradas 96 palavras no site dela.

O que se sabe é que judiar consta, mas judiação e judeu (no sentido pejorativo) não constam da Cartilha e nossas lideranças comunitárias já estão falando sobre isso sempre que possível no rádio e TV. Não é admissível que se pense na "indignação" dos barbeiros e palhaços e se se assuma que judiação é normal. Mas há muita gente que apóia isso, entre eles o grande escritor Ferreira Goulart, em sua coluna de opinião publicada na Folha de SP, à qual a carta abaixo, uma das mais sensatas sobre a questão foi enviada.

Mas sabe o que mais me incomoda? É quando judeus também usam essa forma gramatical brasileira e não percebem que eles mesmos estão com o anti-semitismo incorporado, assimilado e banalizado.

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Prezado Ferreira Goulart,

Que fonte sustenta sua afirmação (Ilustrada, 15/5/2005) de que a palavra judiar nada tem a ver com anti-semitismo, e vem apenas de Judas? Para os dicionários Melhoramentos e Caudas Aulete a palavra judiar vem de judiaria, judaizar e judeu , ao contrário do que escreveu para milhares de leitores dessa Folha. Um ignorante pode dizer judiar diante de um judeu e não perceber que está agredindo seu interlocutor. Mas um poeta, que sabe o valor e o peso das palavras, deveria evitar a grosseria e não justificá-la com falsos argumentos para milhares de leitores de jornal. Concordo que a simples retirada da palavra de dicionários seja errado: não se pode apagar da história de uma língua os preconceitos que a marcaram. O Novo Dicionário Básico da Língua Portuguesa Folha / Aurélio afirma, ainda na edição de 1995, que o sentido popular da palavra judeu é: indivíduo mau, avarento, usurário, registrando (e perpetuando) os povos português e brasileiro como preconceituosos contra judeus. Contudo, um escritor deve usar palavras preconceituosas apenas em situações literárias de preconceito. Se quiser agredir um judeu por ele ser judeu, assuma que é anti-semita, mas não invente que judiação é palavra inocente usada por criancinhas que brincam de malhar Judas. Judas, aliás, era tão judeu quanto Jesus, mas ao simbolizar o traidor foi associado pelos cristãos aos judeus, enquanto Jesus era magicamente dissociado dos judeus pela acusação de deicídio que a Igreja lançava sobre eles. Essa acusação justificou os seculares rituais de cremação de judeus nas Cruzadas e em séculos de Inquisição. A popular malhação do Judas nada mais é que uma sobrevivência nada inocente desses massacres e queimas de judeus. A língua portuguesa traz as marcas do anti-semitismo português que os dicionários registram e, ao fazê-lo, sem fornecer o contexto histórico, acabam por perpetuá-lo.

Prof. Dr. Luiz Nazario - Escola de Belas Artes - UFMG