quarta-feira, agosto 24

Com a Pulga atrás de Gaza

Acompanhando os acontecimentos na Faixa de Gaza, um ponto está me deixando com a pulga atrás da orelha. Há anos falamos das imagens posadas, para a mídia, da "heróica" resistência palestina. No caso dos assentamentos boa parte do que se vê é no mesmo estilo. A legenda de uma das fotos, daquela com mulher e filhos aparecendo no meio do telhado de sua casa, no Jerusalém Post é: "Mulher começa a gritar e chorar quando policiais se aproximam".

Sabe o que mais tem em comum as fotos dessa resistência com as da Intifada? A ausência de pessoal de imprensa nas fotos. Segundo dados oficiais são 700 jornalistas credenciados e dificilmente se vê algum deles. Onde estão? Do lado de cá! Deste lado da foto e não do outro. Aqueles bandos de fotógrafos tirando basicamente a mesma fotos, câmeras filmando dos mesmos ângulos estão sendo uma constante. E não é só isso.

Sabe aquela síndrome dos bailes de Carnaval? Nada acontece e pouco se mostra. Mas quando uma câmera de TV ou um fotógrafo de um grande jornal vira a lente... Aí tudo fica à mostra. Nos assentamentos, muito do que se vê é isso mesmo. Mas minha pulga se chama Amos Gitai. Nunca gostei do cara e digo sem problemas. Para mim ele é apenas o Michel Moore israelense, o sujeito antiético que prefere ser inimigo da própria sociedade onde vive e usa o estilo do falso documentário para dar uma aparência de realidade aos seus filmes. Sua única finalidade não é mudar nada, mas apenas faturar: um trabalho como qualquer outro.

Pois é. Amos Gitai esteve na Faixa de Gaza e agora deve estar na Cisjordânia filmando seu próximo "documentário" sobre a retirada "Cruzando Fronteiras", como noticiado na Folha de SP em 18 de agosto. Estou guardando um monte de fotos, as quais acho que são posadas, para depois ver se aqueles momentos vão estar na película. Na falta de ética "mooriana", vale tudo na imagem. Não dá para saber quais dos personagens são reais e quais estão interpretando para o filme de Gitai. Para mim, os reais, são os que pegaram o cheque e se mudaram.

Vendo na TV, naqueles longos trechos da CNN ao vivo, nota-se algumas coisas: os câmeras da CNN você sabe onde estão, pois está vendo a imagem que eles captam. Os câmeras militares e policiais também são nítidos, portando câmeras mini-dv pequenas e fardados. Agora, sempre lá no meio da confusão, estão um ou dois câmeras-men de roupa escura, sem kipá, usando câmeras mini-dv profissionais, sofisticadas, tipo da coisa que você não quer meter onde estão jogando tinta e areia, a não ser que tenha um motivo muito bom. Aposto com você que são da equipe do Amos Gitai.

O pior é que o cienasta possui uma posição abertamente anti-religiosa. É do grupo que consegue conceber sem problema algum o "ser judeu" dissociado da religião judaica. Então, da mesma forma como já fez em outras vezes, é provável que seu futuro filme mostre o grotesto da retirada e não o lado positivo dela, o que alías quase toda a mídia está fazendo: a retirada é tratada quase como noticiário policial e não como noticiário político.

A declaração mais recente do escritor Amos Oz no jornal Yedioth Ahronoth foi: "A evacuação dos assentamentos da Faixa de Gaza não é apenas uma luta sobre a questão do destino dos territórios. Fundamentalmente é a primeira grande batalha sobre a questão religião e estado... o sonho de acelerar o advento da chegada do Messias é irreconciliável com o sonho secular de um Israel aberto e justo..." Por isso, me preocupa muito a questão de uma resistência com momentos encenados, para o filme de Gitai, para marcar com mais intensidade o conceito anti-religioso do cineasta, mostrando os "resistentes" da forma mais grotesca possível.

Outro cara do qual eu não gosto, o Uri Avneri foi publicado esta semana por vários jornais árabes e palestinos. A parte principal do texto dele, traduzida livremente é a seguinte:

"O que é ideologia? Ela é proclamada em auto e bom tom, novamente e novamente, pelo porta-voz do movimento (de resistência à retirada): D'us nos deu essa terra. Toda a terra e seus frutos pertencem a nós. Qualquer um que dá um metro quadrado para estrangeiros (árabes) está violando os mandamentos da Torah. A Torah é a sustentação. Todas as decisões do governo, as leis do Knesset e os julgamentos dos tribunais são nulos e inválidos se eles se contrapõe à palavra de D'us como transmitida para nós pelos rabinos que se situam acima do gabinete de ministros, dos membros do Knesset, dos juizes da Suprema Corte e dos comandantes militares" (obs MJI: se você substituir os termos judaicos pelos árabes ou palestinos, terá exatamente o mesmo discurso fundamentalista que é usado contra Israel).

Avneri continua: "90% dos milhares de pessoas que vimos nas marchas da semana passada usavam kipot e muitos deles barbas longas e peyot. As mulheres usavam saias longas e tinham seus cabelos cobertos. Todos eles são "judeus renascidos" - muitos imigrantes não eram religiosos em seus países de origem - ou pertencem a grupos nacionalistas-religiosos, seitas nacionalistas-messiânicas que acreditam estar pavimentando o caminho para a "redenção". Deve ficar muito claro para todos: em Israel, a religião judaica está sofrendo uma mutação que mudou completamente a sua face". (obs MJI: discurso muito semelhante a todo o sistema cristão-sionista que acredita trabalhar para a chegada do Messias ao incentivar que todos os judeus vão para Israel, uma das condições das professias de Isaías)

Como já aconteceu em outras ocasiões, por favor não confundam as citações entre aspas de Oz e Avneri com as minhas opiniões.