quarta-feira, agosto 24

Elie Wiesel para contrapor com Oz e Avneri

Não vou deixar Oz e Avneri terem voz isolados na minha publicação. O prêmio Nobel Elie Wiesel, deu a seguinte entrevista publicada agorinha no jornal Le Figaro, francês.

Figaro - Com a evacuação de Gaza, muitos comentaristas insistem na conversão do primeiro ministro israelense ao "pragmatismo"...

Wiesel - Esta evolução de Ariel Sharon não me surpreende. Eu esperava isso desde que se tornou primeiro ministro. É uma constante na história de Israel. Cada vez que um general chega ao poder político ele se transforma em um homem de paz e põe toda a sua energia ao serviço de um acordo pacífico. Essa mudança filosófica e política se produziu no dia em que Sharon disse publicamente - em minha opinião, sem cinismo – que queria a criação de um estado palestino.

Figaro - Como você vê a retirada?

Wiesel - No último momento, aqueles que sonham em incitar a violência de um setor minoritário renunciaram a sua política nociva. A evacuação de Gaza é uma decisão soberana do povo de Israel. Não pode ser contestada.

Figaro - Emmanuel Lévinas dizia que o homem é mais sagrado que a terra. Isto está de acordo com os ultranacionalistas do sionismo religioso?

Wiesel - Sinto-me perto da inspiração de Lévinas e seu "humanismo do outro homem". Quando na bíblia se diz: "Construirão um santuário para mim e habitarão no meio deles", se faz alusão a uma santidade que depende da conduta dos homens e que vêm de sua capacidade para seguir o comportamento ético. Sinto inquietação quando se deixa de lado este preceito e, de forma mais ampla, cada vez que uma religião sacrifica a relação ética pela idolatria e pelo fanatismo. O judaísmo não está mais ameaçado por estes desvios que outras religiões. O fanatismo é uma tentação universal, que induz os homens a cometer atos que o D'us que pretendem reclamar para si próprios só pode reprovar.

Figaro - Espinoza chamava isso de "fazer delirar os deuses com os homens"...

Wiesel - De fato. Se, por exemplo, um fanático utiliza os rolos da Torá para matar outros homens, a única coisa que faz é inverter a escala dos valores religiosos que sempre situa a vida por cima da lei. No judaísmo, o lugar mais sagrado é o tempo. Imaginemos que um homem incendeie o tempo e que por isto é assassinado por outro homem. Qual dos dois é o mais culpado? Para os estudiosos do Talmud está claro: se permanecesse com vida, o piromaníaco deveria ser castigado com 39 chicotadas, mas quem o matou, merece, segundo eles, a pena capital. Conforme a ética do judaísmo, qualquer vida é mais sagrada que o mais sagrado dos lugares da Terra.

Figaro - Qual é o perigo para Israel?

Wiesel - Não caio no pessimismo. Estou convencido que Sharon quer a paz. Nascerá um estado palestino e quanto antes, melhor. Mas Israel foi o primeiro em estar exposto ao perigo que agora ameaça o mundo: o terrorismo suicida. É adequado declarar que o terrorismo é um "crime contra a humanidade". Esta denominação não exerceria um efeito de dissuasão sobre os terroristas mas sobre seus cúmplices. Ademais, iria deixar de qualificar os autores de atentados suicidas como kamikazes (obs mji: termo muito usado na mídia de línguas latinas, menos no Brasil). Os kamikazes (japoneses), sempre foram soldados e seus objetivos sempre foram exclusivamente militares. Em Israel, Nova Iorque, Madri ou em Londres as vítimas são sempre os civis, de qualquer idade e condição.

Figaro - Durante muito tempo o terrorismo foi considerado uma rebelião desesperada...

Wiesel - Esta interpretação se baseia em um contra-senso. A grande maioria dos terroristas de 9/11 pertenciam a famílias com boa condição social. Por outro lado, onde está o desespero quando se escolhe a morte, não para morrer, mas para matar? É necessário reduzir a pobreza e a desnutrição em escala global, mas não nos enganemos: no caso atual, não é a miséria que alimenta o terrorismo. É o fanatismo.

Figaro - Isso soa como "o apocalipse"...

Wiesel - De fato, o grande perigo que nos ameaça coletivamente é esta forma de guerra atípica e inédita que culmina com o culto à aniquilação. Hoje é fácil matar em grande escala... Me assustam essas imagens de devastação. Minha atividade como professor e escritor me convenceram de que a educação é o fator decisivo. Mas exige tempo. Dispomos de defesa diante da avalanche de destruição do terrorismo, diante do espectro de ataques químicos e bacteriológicos?

Figaro - Estamos com obsessão pelo apaziguamento?

Wiesel - Entre o apaziguamento e a paz, prefiro a paz. O apaziguamento não é mais que uma caricatura da paz. Em troca, a paz merece o sacrifício de muitas coisas. Os israelenses demonstram isso de foram exemplar. Se voltando para o terrorismo maciço, se não for feito nada profundo, o século 21 ficará para os anais da história como o século do terrorismo. E só teremos um recurso

Figaro - Qual?

Wiesel - Convocar uma conferência de emergência de âmbito internacional que permita aos chefes de estado tomar iniciativas a partir de acordos aceitos por todos.

Figaro - A denúncia contra Israel e o sionismo ganha força...

Wiesel - Esta aresta vem de pessoas as quais eu esperava outra coisa. Desde algum tempo, são pessoas da extrema esquerda que encabeçam a ofensiva ideológica que compara o Estado de Israel com a Alemanha nazistas ou assinala semelhanças entre Sharon e Hitler.

Figaro - Quais são as raízes intelectuais e políticas destas ideais?

Wiesel - A origem deste novo anti-semitismo remonta à primeira Intifada. Muito comentaristas e jornalistas começaram, então, a perder a linha em sua forma de relatar o conflito. Sua capacidade crítica ficou hipnotizada pelo espetáculo esquemático do enfrentamento entre alguns tanques e algumas crianças armadas com pedras. É mais fácil criticar os tanquistas que os pais que enviam seus filhos para a frente de combate! Além disso, muitos vêem, e lhes incomoda, uma convergência total entre os interesses, ambições e recursos de uma pequena nação como Israel e de uma grande potência como os Estados Unidos. Se adicionar um ingrediente religioso a estas teorias geopolíticas, se obterá um veneno terrível.