sexta-feira, dezembro 2

Anti-semitismos ocultos na América Latina

Há muito o que esconder. Existem em vários países uma consciência estranha de não relatar, não reclamar, não expor e deixar que o anti-semitismo corra solto sem que as outras comunidades judaicas saibam.


Nazismo no Peru 2005

A Argentina é um exemplo. Em outubro, a direção da DAIA convocou uma entrevista coletiva para dizer que até aquele momento já haviam sido registrados 100 incidentes anti-semitas no país em 2005, sem entrar em detalhes sobre o que havia ocorrido. Não fossem algumas pessoas que tiraram fotos e mandaram pelas diversas listas judaicas, talvez ninguém ficasse sabendo de nada.

O Chile continua como sempre foi: um grande "nada" do outro lado da montanha, de onde não sai absolutamente nenhum relato sobre o que ocorre, mesmo que a revista nazista Pendragon continue sendo vendida livremente em bancas de jornais.

No Uruguai, as pichações pró-palestinas e nazis, são constantes em instituições judaicas e perto delas, conforme relatou um membro da comunidade de Montevideo que passou uns dias por aqui e estranhou como quase nada viu por aqui, pensando que no Brasil a coisa estava pior, quando é exatamente o contrário.

A enorme comunidade judaica mexicana jamais registrou qualquer incidente e a maioria dos judeus mal sabe que existe uma comunidade grande e culturalmente rica por lá, com dezenas de incidentes anuais jamais mostrados para ninguém.

Na Venezuela, antes da lei de mordaça na imprensa até vinham relatos. A cada passagem de manifestações pró-governo por instituições judaicas eram feitas pichações de "fora-sionistas" e "viva a palestina" nos muros de sinagogas, escolas e clubes pelo caminho. Por várias vezes a rádio oficial acusou os judeus de estarem por trás dos movimentos de derrubada de Chaves, de espionarem para os EUA e de se aproveitarem de todo o sistema de ensino e saúde do país e depois irem embora para Israel ou Miami. Mas agora, o que se vê é uma declaração oficial da liderança comunitária de lá afirmando oficialmente que não acontece nada, até porque se disserem que acontece, vão para a cadeia.

O recém divulgado relatório de crimes de ódio nos EUA divulgado pelo FBI aponta para o número habitual de em torno de 1.250 ataques "com registro de ocorrência policial", classificados como crimes de ódio ou crimes raciais contra judeus ou instituições judaicas nos EUA em 2004. Normalmente esse relatório é divulgado em março e neste ano atrasou muito. Especula-se por lá que para cada ataque que resultou em queixa na polícia, outros quatro não foram relatados. A estatística americana tem pelo menos 20 anos de incidentes e tendências arquivadas. Tal relatório destaca cidades, estados e tipos genéricos de incidentes, não descrevendo nenhum deles.

Mas algumas vozes independentes não se calam e o rabino Guillermo Bronstein, de Lima, no Peru, resolveu romper o silêncio suicida e expor o que está acontecendo em nosso país vizinho.


Nazismo no Peru 2005

Bronstein é o rabino da Asociacion Judia 1870, conservadora, a maior das três sinagogas da capital, composta por cerca de 200 famílias de origem alemã. "É muito raro ouvir declarações anti-semitas em Lima, mas recentemente existe um crescimento óbvio de duas correntes. A primeira é o aumento dos grupos neo-nazis, ainda uma pequena minoria mas muito barulhenta". A segunda se deve à proximidade de alguns membros da comunidade judaica com o governo do presidente Alejandro Toledo, inclusive o vice-presidente David Waisman, membro de nosso congregação, que é muito popular e estimado pelo público".

Somado a isso está crescendo rapidamente o movimento étnico indígena super-nacionalista liderado por dois ex-militares peruanos, os irmãos Humala, que lideraram duas pequenas rebeliões contra o governo de Toledo. "Eles são abertamente xenófobos e tem atacado principalmente os chilenos – devido ao longo conflito de fronteira entre os dois países – e os judeus", disse Bronstein.

"Há um total de 3 mil judeus vivendo no Peru com apenas três sinagogas principais: a nossa e outras duas ortodoxas. A maioria vive em Lima, mas existe uma pequena comunidade em Iquitos, a principal cidade peruana na Amazônia e famílias dispersas em Arequipa, Trujillo e Cuzco"


Nazismo no Peru 2005

Ao longo de 2005 houve várias ameaças anti-semitas contra Salomon Lerner, juiz encarregado da comissão de investigação do movimento guerrilheiro Sendero Luminoso e dos excessos cometidos pela repressão militar nos anos 80 e 90. A guerra revolucionária comunista travada pelo Sendero Luminoso levou a morte estimada de 80 mil peruanos.

A comissão de Lerner determinou que 53% das mortes podem ser atribuídas diretamente às ações do Sendero e as outras 47% às forças armadas peruanas. O relatório ainda afirma que a maioria dos mortos era de pessoas inocentes, não envolvidas com as armas.

Apesar do sobrenome, Salomon Lerner é católico praticante, professor de direito da Universidade Católica do Chile. Seu pai era judeu e sua mãe, católica. Seu irmão é judeu praticante na congregação do rabino Bronstein.

(os relatos sobre o Peru foram dados em entrevista do rabino Bronstein ao jornalista argentino Joe Goldman, publicados no dia 1 de dezembro)