quarta-feira, janeiro 11

JB publica resposta ao artigo de Santayana

Publicado no Jornal do Brasil do dia 10/jan/2006
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Os judeus e o Estado de Israel
por  Paulo Geiger

Ensaísta

Como judeus, é parte de nossa conduta e de nossa ética democrática respeitar o direito de opinião, mesmo que essa opinião não nos agrade. Isso não é um grande gesto, é o mínimo que se espera de quem quiser ter seu direito também respeitado. Mas não há como não reagir ao artigo ''Os equívocos sangrentos'', de Mauro Santayana, na coluna Coisas da Política do JB de 6 de janeiro.

Para começar, o artigo baseia-se no livro de um judeu, Arthur Koestler, que trata da questão da formação étnica deste povo. A partir daí, Santayana entra num labirinto de incompreensões, por ignorância ou má-fé. Esteja Koestler certo ou não, os judeus não pretendem e nunca pretenderam ser uma 'raça' ou constituir uma só 'etnia' (muito menos na vigência dos modernos conceitos de raça e etnia), o que torna dispensáveis os 'esclarecimentos' com que Santayana pretende contestar uma suposta (por ele) pretensão judaica.

Os judeus são um povo multiétnico há muito tempo. Eles sabem disso e se orgulham disso. Inclui caucasianos, semitas, negros africanos, hindus morenos de olhos amendoados, 'amarelos', e suas infindáveis misturas. Todos os que se identificam com esse povo, qualquer que seja sua origem étnica, pertencem a ele, associam seu futuro ao futuro dele. O que importa se descendam ou não todos do mesmo ramo, ou dos antigos hebreus?

Hitler, diz Santayana, ao matar judeus não matou só semitas, matou também ''caucasianos''. E daí? Os judeus ''caucasianos'' eram por acaso menos judeus que os ''semitas''? Sofreram menos que eles? Na verdade Santayana se revela um racista ao dizer que os ''caucasianos'' matam hoje semitas (os palestinos), afirmação por si já capciosamente unilateral e maldosa, que demoniza os judeus israelenses e os ignora como vítimas, caucasianas ou semitas, dos terroristas ''semitas'' palestinos.

Para Santayana, os judeus da Europa não tinham o direito de ''ocupar a Palestina'' porque a Palestina não era sua origem. Mas apesar de admitir que os judeus sefaraditas teriam esse direito, não menciona que estes constituem de fato a maioria da população judaica em Israel. E se os milhões de judeus ''caucasianos'' europeus (e seus descendentes na América e nos outros continentes) se identificam, juntamente com os sefaraditas, com uma história, uma cultura e uma religião que vê sua origem em Sion, se durante 2.000 anos oraram voltados para Sion, sonharam com o Retorno à Terra Prometida e rezavam para nela reconstituir uma vida nacional plena, quem é Mauro Santayana, mal interpretando Koestler, para dizer que estavam todos ''equivocados''?

Entrando no terreno já invadido pelo presidente do Irã, Santayana afirma que a criação do Estado de Israel foi meramente uma reparação do Holocausto, que caberia a seu perpetrador, a Alemanha. De novo vemos a ignorância da história transformada em conceito pelo filtro do preconceito. A centralidade de Sion no judaísmo não surgiu do Holocausto. O sonho do Retorno não foi uma reação ao extermínio pelos nazistas e sim fruto de uma incessante busca de realização nacional, que durante 2.000 anos foi de cunho místico e religioso, mas que foi transformada num 'direito' similar àquele que os novos tempos outorgaram a todos os povos. O que a ONU fez foi constatar que a reivindicação judaica era justa, e que o Holocausto a fizera urgente.

Mente, ou de novo ignora a história Santayana, ao descrever a guerra de independência de Israel como uma guerra de ''invasores'' (os judeus) contra árabes em flagrante inferioridade. Na realidade o recém-criado estado judaico, sem exército regular e sem armas pesadas, é que foi invadido pelos exércitos regulares de cinco países árabes. Os ''arrogantes'' israelenses propuseram, desde o texto da sua declaração de independência um acordo de paz definitivo, em fronteiras mutuamente reconhecidas, que reconhecesse o direito nacional de todos os povos. Esse direito, hoje, inclui o do povo palestino a ter seu estado nacional, e inclui também o direito do povo judeu - seja caucasiano, sefaradita ou afro - de ter seu Estado nacional na terra que considera de sua origem (porque o é) há milhares de anos. Se justiça e direitos são iguais para todos, este é o único caminho possível.