sábado, fevereiro 11

Quando se podia rir de Maomé

(O Globo - Opinião - 11/fev/2006 - Zuenir Ventura)

E pensar que outro dia mesmo, nos anos 60, livres da suspeita de heresia, cantávamos no carnaval sem intenção de blasfemar e sem medo de ofender: “Olha a cabeleira do Zezé, Será que ele é? Será que ele é? Será que ele é bossa nova? Será que ele é Maomé. Parece que é transviado. Mas isso eu não sei se ele é.”

Bem antes, na década de 40, já invocávamos inocentemente não só o nome do profeta, mas o do próprio Alá, em meio a confetes, serpentina e lança-perfume: “Alá-lá-ô-ôôô. Mas que calor ôôô.”

É pouco? Então imagine Maria Adelaide Amaral incluindo na minissérie “JK” um trecho da comédia musical “Vou te contá”, de Alfredo Palácios, lançada em 1958, durante o governo Juscelino.

No filme, os Demônios da Garoa interpretam a música “Harém de Maomé”, de Arnaldo Rosa e Lino Tedesco. Os integrantes do conjunto aparecem sentados em um harém, de onde o intérprete, cantando, pede por telefone que lhe seja mandada uma mulher: “Alô, alô!! Quem fala? É do harém do Maomé? O papai pediu para mandar. Uma nega que me faça cafuné.”

Hoje, não sei quem se sentiria mais ofendido, se os muçulmanos ou os negros.

Decididamente, o humor não pode pagar sozinho pelo incêndio que se alastrou da Síria à Indonésia, passando pelo Iraque, o Iran e o Afeganistão, queimando embaixadas e consulados dinamarqueses, provocando mortes e colocando em confronto o mundo islâmico e a Europa. Por que só agora, quatro meses depois da publicação das doze charges?

Qualquer que tenha sido o contencioso que ajudou a atiçar o fogo, começam a surgir alguns gestos no caminho da pacificação, embora o clima ainda seja explosivo. Na Dinamarca, cerca de três mil intelectuais e políticos árabes e europeus lançaram manifesto na internet afirmando “querer viver em paz com o mundo muçulmano”. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, condenou os jornais que “jogam óleo no fogo”, insistindo em publicar as charges ofensivas. Até o líder do radical Hamas Khaled Mechaal fez um apelo à moderação e disse que o seu grupo está disposto a ajudar a diminuir as tensões, com a condição de que os países ocidentais se comprometam “a pôr fim aos atentados contra os sentimentos muçulmanos”.

Se eu não tivesse medo de ser mal interpretado, daria minha contribuição a esse movimento de distensão, a contribuição de quem vive num país onde judeus e árabes coexistem harmoniosamente. Faria uma paródia da marchinha de Haroldo Lobo e Nássara (o refrão “Alá-lá-ôôô” é atribuído ao descendente de árabes David Nasser): “Alá, meu bom Alá Mande água pra Ioiô Mande água prá Iaiá.”

E junto mande também um pouco de paz e tolerância para seu povo e o mundo todo. judeu