quinta-feira, março 9

Cuba nas Colinas do Golã

"Do livro “Cuba Nostra”, de Alain Ammar, com o testemunho do ex-agente secreto Juan Vives e a participação de Jacobo Machover. (Plon, outubro de 2005- Paris), pág. 201/204./

Alain Ammar é repórter da televisão francesa TV1. Juan Vives, vive na França, desde 1979. Jacobo Machover é cubano, escritor, jornalista e tradutor, vive exilado na França

Tradução: Herman Glanz

Antes de engajar maciçamente suas tropas na África, Castro tinha necessidade um grande banco de provas. Foi a Síria. Uma intervenção mascarada, quase desconhecida. Ninguém foi informado da nova “epopéia” dos soldados cubanos em terras estrangeiras, naquele fim do ano de 1973.

Foi somente em de 22 de dezembro de 1975, no discurso perante o Primeiro Congresso do Partido Comunista de Cuba, que o "Líder Máximo" reconheceu, publicamente, a intervenção de uma força armada cubana regular, ao lado de centenas de conselheiros soviéticos e de dezenas de milhares de soldados de Hafez El Assad: “Não é nenhum segredo que, numa ocasião de perigo e de ameaças à República da Síria, nossos homens foram para a Síria.”

Castro fez também uma alusão ao fato numa entrevista ao semanário italiano "Época", de 15 de janeiro de 1978. Num outro discurso, no dia Primeiro de Maio de 2003, isto é, trinta anos depois, Fidel Castro relembra esse feito do exército: “Uma brigada inteira de tanques monta guarda nas Colinas do Golã, a pedido da nação árabe da Síria, quando esta parte do território foi, injustamente, arrancada daquele país.”
Portanto, essa ajuda militar à Síria, oficialmente acompanhada pelo envio de duas outras brigadas, de “ajuda médica” dessa vez, passou pouco percebida, apesar dos protestos oficiais de Shimon Peres, então Ministro da Defesa israelense, como se nenhum dos lados demonstrasse interesse em divulga-la.

Em setembro de 1973, durante a Quarta Conferência dos Países Não-Alinhados, na Argélia, o coronel líbio, Muammar Kadhafi, exigiu que Cuba fosse expulsa do movimento, pelo fato ter afirmado apoiar as posições soviéticas. Desafiado ao vivo, Fidel Castro reagiu, com grande surpresa para seus próprios diplomatas, incluindo seu embaixador em Tel Aviv, ao anunciar, uma hora antes do encerramento da Conferência, o rompimento das relações diplomáticas com Israel. Em conseqüência, Kadhafi se precipitou nos seus braços, seguido pelo líder da Organização para a Libertação da Palestina, Yasser Arafat. Foi o primeiro encontro entre Arafat e Castro.

Rapidamente, o Comandante passa do gesto à ação. Os preparativos para uma ação militar seguem acelerados em Havana. Alguns dias depois, em 6 de outubro, estoura a Guerra do Yom Kipur (obs MJI: quando a Síria atacou o norte de Israel e penetrou, em alguns pontos, quase até o centro de cidades e kibutzim importantes). O jornal do Partido Comunista, o "Granma", aparece com a manchete na primeira página: “A barbárie sionista na Síria.” As tropas cubanas não poderiam se reunir á Guerra do Yom Kipur, mas estariam presentes na retaguarda.

Durante meses, no outono de 1973, os conselheiros militares cubanos prepararam o exército sírio, pois seus oficiais não tinham os conhecimentos necessários, especialmente em matemática e geometria, para emprego do material de artilharia fornecido pelos soviéticos: canhões automáticos SAO100, tanques T-34 e T-55, morteiros de 120 mm, canhões antitanques de 57 mm, canhões de 156 mm, lança-foguetes BM 22. (os formidáveis Katiushkas ou “tubos de órgão musical de Stalin”) e outros. “Também foi feito um sistema de construções defensivas, explica Juan F. Benemelis. ("As Guerras Secretas de Fidel Castro"- Fundación Elena Mederos, 2003). O Golã foi, e ainda é, porque tudo foi deixado intacto, cortado por corredores subterrâneos.” O arcabouço necessário para uma intervenção maciça estava então formado. Era necessário encobrir os homens.”

As tropas castristas, cerca de quatro mil e duzentos homens, se instalaram ao pé das Colinas do Golã, durante a “guerra de atrito”, que durou de fevereiro a maio de 1974, enquanto que uma de suas brigadas foi encarregada de garantir a defesa de Damasco. Esses homens entraram em combates esporádicos com as tropas israelenses, que constataram, com surpresa, a precisão dos tiros e a presteza dos combates, longe do amadorismo dos exércitos árabes. Intérpretes palestinos, formados militarmente em Cuba, serviram de ligação entre os exércitos sírio e cubano. Os serviços de inteligência israelenses interceptaram numerosas conversas em espanhol. O General Moshe Dayan, informado, denuncia, numa mensagem de televisão, em 31 de março de 1974, a presença de soldados cubanos no Golã. (David J. Kopilov – "Cuba, Israel e a OLP", Washington, Cuban-American National Foundation, 1985).

O Ministro cubano da Defesa, Raul Castro, fez uma visita de inspeção às tropas em setembro de 1974, acompanhado por Hafez El Assad. Ele condecorou as tropas “internacionalistas” presentes em solo sírio.

Juan Vivés teve ocasião de visitar um certo número de feridos graves, repatriados, no Hospital Piti Fajard, de Havana. “É muito difícil avaliar as perdas cubanas, disse. Fidel pensa que confessar as perdas cubanas constitui sinal de fraqueza. É por isso que, quando apresentam os números, eles são fantasiosos.”

Dentre as ações que mais causaram mortes aos militares cubanos, Juan Vivés indica a explosão de uma mina à passagem de um canhão auto-propulsado SAO100, acompanhado de muitos soldados da infantaria, assim como um caminhão conduzindo de duas dezenas de homens. Dois tanques T-55, que entraram numa zona controlada pelos israelenses, foram bombardeados por helicópteros do TZAHAL. Houve cerca de 180 mortos e 250 feridos em volta do Golã.

Os cubanos deveriam, assim, suplementar seus ideais destinados a morrer em nome dos objetivos “internacionalistas” estabelecidos pelo Comandante-em-Chefe.

O número de vítimas cubanas se elevará exponencialmente em conseqüência das campanhas que se seguiram, todas coordenadas ou principalmente ordenadas pela União Soviética, que não poderia enviar, diretamente, suas tropas para terrenos de operação no Oriente-Médio ou na África, sob pena de deslanchar uma resposta ocidental, especialmente americana. judeu