terça-feira, março 7

Tom, Jerry, Judeus, ACME e Iranianos

Logo antes do Carnaval, a Folha de São Paulo publicou uma pequena notícia de origem iraniana, cuja repercussão em outras mídias pelo mundo foi próxima de zero. Com as viagens de 10 dias carnavalescos no Brasil, o jornal do dia 27 de fevereiro acaba se perdendo nas brumas do feriado.

O revisionismo iraniano atacou da seguinte forma: Hasan Bolkhari, apresentado como “especialista” do ministério da educação do Irã, lançou um alerta para todas as crianças entenderem o que significa, na “verdade”, o desenho animado Tom & Jerry. Na visão do governo de Teerã, o desenho é pró-judeu, e uma conspiração para favorecer os judeus.

Bolkhari diz que o apelido pejorativo de “ratos”, foi dado aos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial por considerar os judeus "animais sujos e que agem escondidos". No mundo real, o preconceito e a perseguição aos judeus alemães começou nos anos 20 do século passado. E para ele, o desenho Tom & Jerry apresenta um rato esperto que sempre se dá bem, para "apagar" a imagem negativa dos ratos (os judeus, segundo Hasan) da mente da crianças.

Quando assistimos na TV os desenhos de Tom & Jerry passados diariamente, algumas vezes vários por dia, temos a impressão de que a “conspiração” pode ter existido. Mas a verdade histórica é muito óbvia. Além disso, nos anos 40, os desenhos eram assistidos em poucos cinemas americanos, seu custo em tempos de guerra era altíssimo e obviamente em nenhum cinema europeu, muito menos nos países sob ocupação nazista, exibiu desenhos americanos antes e durante o conflito.

Tom & Jerry, sem serem rato e gato, foram personagens de uma série de desenhos animados do estúdio Van Beuren entre 1931 e 1933 (26 episódios). A criação dos personagens que conhecemos hoje é posicionada por Bolkhari em 1939, para coincidir com o início aceito da Segunda Guerra Mundial, mas a data correta para o primeiro desenho, "Puss Gets the Boot", é 10 de fevereiro de 1940, pelos estúdios Hanna-Barbera. Vira e mexe, esse desenho passa no Cartoon Network (atual nome da Hanna-Barbera) onde se pode encontrar Tom, ainda chamado de Jasper, e Jerry, ainda chamado de Jinx, seus nomes originais. Até porque os dois personagens anteriores ainda estavam "no ar". Foi um fracasso completo.

O segundo desenho de Tom & Jerry foi para o cinema apenas em 19 de julho de 1941, 17 meses depois do primeiro, ano em que foram produzidos só dois desenhos. Já em 1942, os personagens foram se consolidando e os estúdios conseguiram fazer cinco desenhos. Em 1943 foram quatro desenhos, em 1944 foram cinco desenhos e em 1945 outros cinco. Portanto, ao longo da Segunda Guerra Mundial inteira, os estúdios Hanna-Barbera, produziram para esta “conspiração de melhorar a imagem dos judeus” meros 22 desenhos com duração entre sete a oito minutos, todos alienados do conflito, diferente dos outros estúdios da época: a história de um fracasso. Em 18 anos, apenas 114 desenhos de Tom & Jerry saíram das pranchetas da Hanna-Barbera. Isso é pouco entre os mais de 3.000 desenhos animados produzidos pelo estúdio.

Os personagens continuaram sua vida por outros seis estúdios, pertencendo atualmente à Warner, desde 1993, que produziu apenas três longas metragens (1993, 2002 e 2005) e dois curtas de sete minutos (2001 e 2005), em 16 anos.

Nas palavras de Hasan "Se acontecer de virem amanhã esse desenho, tenham isso em mente e vejam com essa perspectiva. O rato é muito esperto. Tudo o que ele faz é bonito. Ele bate no gato, mas sua crueldade não faz a gente detestar o rato. Ele é tão belo e esperto... É exatamente por isso que alguns dizem que ele visa apagar a imagem dos ratos da mente das crianças européias e mostrar que esse animal não é sujo e tem aquelas características. Infelizmente, temos muitos casos assim em Hollywood".

Evidentemente o “especialista em ratos” iraniano se refere ao Mikey (1928), Mighty Mouse (1942), Speedy Gonzáles (1953) e muitos outros ratos ilustres do mundo dos desenhos animados, para ele, certamente parte da conspiração mundial para melhorar a imagens dos ratos e conseqüentemente dos judeus.

William Denby Hanna (1910-2001) e Joseph Roland Barbera (1911- ) não são judeus. O aporte de capital para o impulso da produtora Hanna-Barbera foi feito por um investidor judeu, George Sidney, apenas em 1944. Sidney ficou na presidência do estúdio até 1954 que deslanchou e partiu para consolidar o sucesso após sua saída.

Usando a mesma lógica pervertida dos revisionistas "ari-nazis" e "irã-nazis" poderíamos afirmar, categoricamente, que os estúdios Warner Brothers durante décadas fizeram propaganda subliminar pró-islâmica ao criar e fazer o mundo assistir nos desenhos a marca de produtos ACME, um anagrama óbvio de MECA... Quanta bobagem...

judeu