terça-feira, outubro 17

Teste nuclear da Coréia do Norte mata mais de 1 milhão de pessoas

Teste nuclear da Coréia do Norte mata mais de 1 milhão de pessoas

Por que Israel e Japão precisam se preocupar com uma Coréia do Norte atômica? As notícias e avaliações da situação atual estão muito superficiais e uma perspectiva histórica é fundamental. Vemos na TV os japoneses muito preocupados com norte-coreanos. Há motivos para isso?

Praticamente todos os historiadores, escritores e jornalistas disseminadores de informações e opiniões usam a invasão da Polônia, em 1939, como data do início da Segunda Guerra Mundial. Eu não concordo e nunca concordei. Também colocam a Guerra no Pacífico, como um conflito se segunda classe, parte da Segunda Guerra e iniciado em dezembro de 1941, com o ataque japonês contra Pearl Harbour. Também não concordo com isso. Mantendo o calendário dessa forma, retira-se importantes elementos do entendimento daquele conflito. E se pouco se ensina sobre o conflito, o que dizer do que girou antes e em torno dele?

Trazer a Segunda Guerra para 1939, é retirar do processo as anexações da Áustria e Tchecoslováquia; retirar do processo as leis raciais de Nuremberg contra os judeus; e a Noite dos Cristais, onde TODAS as sinagogas da Alemanha e Áustria foram atacadas. Marcar a Guerra do Pacífico em dezembro de 1941 é incorrer num grave erro que nos leva a incompreensão do medo japonês de um ataque nuclear por parte dos norte-coreanos.

Não ache que este cenário é improvável: lembre-se da Iugoslávia. Quando se fragmentou na queda do comunismo local, a primeira coisa que os cristãos sérvios fizeram foi uma guerra de extermínio contra os muçulmanos bósnios, que apoiaram o regime nazista, perseguindo judeus e cristãos na região. No início dos anos 1940, os cristãos sérvios estavam apontando para o comunismo, sobre a liderança de Tito que os comandou, em guerrilha, até o fim do conflito. Mais de 40 anos depois, as populações foram "a forra". Isso pode acontecer na Ásia. Vamos ver a cronologia do problema japonês e por quê afirmo que a Guerra do Pacífico é muito anterior à 1941.

1894 – Japão entra em guerra com a China e a derrota em apenas nove meses.

1895 – Pela derrota, a China cede a ilha de Taiwan para o Japão que a ocupa até 1945

1904 – Japão entra em guerra com a Rússia, que é derrotada em 1905, perdendo parte de seu território siberiano na costa do Pacífico.

1907 – Japão invade a Coréia provocando uma guerra de três anos. Em 1910 a Coréia é derrotada e o Japão a ocupa até 1945 – é aqui que está a origem do medo japonês de um ataque nuclear norte-coreano. Como todas as ocupações fascistas japonesas, esta foi brutal e covarde. Os japoneses tinham suas próprias teorias raciais onde se consideravam como "superiores com poder emanado dos deuses" e todos os outros povos eram racialmente inferiores.

1914 – Japão se alia à Inglaterra na Primeira Guerra Mundial, mas existe pouquíssima documentação sobre a sua real participação no conflito.

1919 – Estando do lado vencedor, o Tratado de Versalhes dá aos japoneses ainda mais territórios (ex-alemães) no Pacífico.

1931 – Japão invade novamente a China (Manchúria) e instala um governo chinês fantoche (até 1945).

1936 – Japão assina um tratado anti-comunista com a Alemanha e no ano seguinte com a Itália, formando "O Eixo".

1937 – Japão ataca novamente a China e após um ano de combates, ocupa Shangai, Pequim e Nanjing – fontes conservadoras citam mais de 300.000 civis mortos pelas tropas de ocupação – não em combates. O estupro de "civis inferiores" era considerado normal para as tropas japonesas e há farta documentação sobre civis em Shangai sendo utilizados (vivos), pelos japoneses, como alvos para treinamento de ataques com baionetas.

1940 – Com a queda da França sob a Alemanha Nazista, o Japão ocupa a Indochina Francesa (Vietnã).

1941 – Ataque japonês contra Pearl Harbour

1951 – Apenas depois de seis anos do final da Segunda Guerra Mundial é que o Japão assina o Acordo de Paz com EUA e URSS.

Bom, dá para perceber que o Japão esteve em sua guerra única de 1894 até 1951, fator muito desprezado no ensino da história.

Desmilitarizado, o Japão continua com tropas de ocupação/auxílio americanas estacionadas lá até hoje, bem como a Coréia do Sul. Sem força aérea, marinha ou exército decente, o Japão mantém-se um estado independente-ocupado.

Normalmente a Coréia do Norte filma, fotografa e mostra seus sucessos. Até agora não mostrou nada de seu primeiro teste nuclear. Os analistas discordam. Alguns apontam não ter havido explosão nuclear, mas vamos admitir que houve. A intenção teria sido de uma bomba de 4 kton ("quilotons" - equivalente a 4.000 toneladas de TNT – um caminhão-bomba grande tem uma tonelada de explosivos, para você ter uma idéia melhor). A bomba lançada sobre Hiroshima tinha 15 kton e a de Nagazaki, 24 kton. Portando a arma norte-coreana é um traque-nuclear. As bombas grande atuais são medidas em "mton" ("megatons" – milhões de toneladas).

Quem explode uma bomba atômica não explode nenhuma. É preciso mostrar-se capaz de produzir outras bombas e fazê-las explodir. Portanto, precisamos esperar o segundo teste e talvez alguns outros. A Índia, fez seis. O Paquistão fez três. Mas devemos ficar aliviados por uma bombinha de 4 kton ou nos sentir ameaçados?

Ameaçados! Essas bombas "fracas" são dimensionalmente pequenas e cabem num projétil de artilharia pesada (bala de canhão): são armas táticas e não estratégicas. Não visam evaporar cidades, mas atacar áreas restritas, portos, instalações militares, movimentos de tropas, sempre alvos limitados. No momento, são mais importantes que armas nucleares estratégicas – aquelas de "megatons". Pelo seu pequeno tamanho podem ser transportadas em malas ou mochilas, pesando, talvez entre 15 e 25 kg somente. Também há outro fator: com a mesma quantidade de urânio enriquecido ou plutônio se faz mais bombas menores...

Neste ano, o Irã recebeu mísseis de longo alcance (2.000 km) comprados na Coréia do Norte. Isso veio de navio, através do Golfo Pérsico controlado pelos EUA, como comércio legítimo. Quem nos garante que não vieram ogivas nucleares junto? O que foi explodido semana passada não estava pronto há seis meses atrás? E desenvolvendo armas atômicas táticas, quem pode garantir que a Coréia do Norte não as venderá? Estamos falando de um regime que tem como produto de exportação, drogas e notas de dólar novinhas, praticamente iguais as do Tesouro americano... Nem se pode considerar como falsas, pois são verdadeiras, apenas feitas fora dos EUA...

Mas este primeiro teste, de meros 4 kton foi a explosão mais devastadora entre as outras 2.000 armas nucleares detonadas na história da humanidade: matou mais de 1 milhão de pessoas. Não matou com ferro, fogo ou radiação: matou de fome! Faz exatos 10 anos que o regime criminoso da Coréia do Norte, cujos cidadãos não fazem a mínima idéia do que sejam os outros países e de como é o mundo real, falido por sua corrida armamentista unilateral, deixou que mais de 1 milhão de seus cidadãos morressem de fome no inverno. A tragédia foi tão grande que a população civil é alimentada por doações através da ONU ou diretas da Coréia do Sul, EUA, China e União Européia.

Enquanto o mundo se compadece com os norte-coreanos famintos e empurra recursos goela adentro do país, o governo Ill aproveita os recursos financeiros que não precisa gastar para alimentar seu povo e investe em mais armas, mais mísseis e num programa nuclear que no começo de 2006 era declarado para fins pacíficos e sem intenção de produzir armas nucleares.

As sanções da ONU entram em vigor com a chegada do inverno por lá. Ninguém sabe, depois de 1996, quantos norte-coreanos pagaram com a vida por essa bomba que está sobre nossas cabeças, mas, doutrinados desde o berço, não se importam em dar sua vida por um comunismo hereditário, pois julgam que esse é o único modo de vida que existe. Lamento pela sorte que o destino reserva aos norte-coreanos, pois se desenvolver e chegar ao nível de seus parentes do Sul parece não ser mais uma opção.

Com as fracas sanções, outros países já se assanham. A ONU deu péssimos recados: desrespeitem os acordos e tratados, e serão punidos com outro pedaço de papel; Irã, se não conseguimos acertar a situação com a ridícula Coréia do Norte, vocês podem fazer o que quiserem; e mundo, escolher um secretário geral sul-coreano quando o problema maior é a Coréia do Norte significa o conflito e jamais o acordo, pois a Coréia do Norte não irá reconhecer a secretaria geral como legítima interlocutora.

 José Roitberg – jornalista